terça-feira, 24 de março de 2009

É ADJUNTO ADNOMINAL ou COMPLEMENTO NOMINAL ?






Sim, sim, amigos!

Primeiramente, bem-vindos ao nosso querido Blog!

Hoje temos um assunto muito polêmico pela frente: saber diferenciar Adjunto Adnominal (AA) de Complemento Nominal (CN).

É verdade que são muitas as dicas, os "bizus" para distinguir quem é quem no jogo do bicho. Ou seja, basta saber "os macetes" que é tiro e queda!

Nesses momentos é necessário calma.

Porém, de início, não faremos nenhum suspense: vamos ao que interessa.

1. A DIFERENÇA SEGUNDO O QUE É ENSINADO:

Adjunto Adnominal é qualquer palavra da língua portuguesa que concorda em gênero e número com o substantivo; ou grupo de palavras (locução) que se refere a ele.

Dentre as 10 classes de palavras que a GT nos oferece, 4 referem-se ao substantivo. São elas:

ARTIGO

ADJETIVO / LOCUÇÃO ADJETIVA

NUMERAL

PRONOME

Logo, essas "classes" podem funcionar como AA.

Ex1: Todos os meus grandes amigos visitaram uma bela e pacata cidade de litoral.

Para identificar os AAs, basta, a princípio, achar o substantivo e perceber as palavras que a ele se ligam ou com ele concordam.

Todos (AA) os (AA) meus (AA) grandes (AA) AMIGOS visitaram uma (AA) bela (AA) e pacata (AA) CIDADE de litoral (AA).

DE LITORAL é chamada LOCUÇÃO ADJETIVA, isto é, grupo de palavras que funciona como um adjetivo. Tal locução é de natureza caracterizadora, restritiva tal qual um adjetivo. Coincidentemente, podemos até fazer uma correspondência DE LITORAL = LITORÂNEA. Logo, AA também.

Observemos agora estes exemplos:

a) A garota estava irritada.

b) A garota irritada desceu as escadas.

c) A notícia deixou a garota irritada.

Nos três exemplos o adjetivo IRRITADA se refere ao substantivo GAROTA. Contudo, trata-se de AA? No primeiro caso, temos PREDICATIVO DO SUJEITO. Já no segundo, ADJUNTO ADNOMINAL. E no terceiro, PREDICATIVO DO OBJETO (vide TRANSITIVIDADE VERBAL)

Pois bem!

Vejamos mais exemplos sobre AA:

a) Olha aquelas pequenas caixas empilhadas! AAs = aquelas, pequenas, empilhadas.

b) Muitos homens modernos admiram mulheres independentes. AAs = muitos, modernos, independentes.

Até agora tudo ótimo. Ok? Espero que sim.

O Adjunto Adnominal pode ser representado por uma expressão preposicionada, de natureza caracterizadora, representado, portanto, por uma verdadeira LOCUÇÃO ADJETIVA. Como nós analisamos em DE LITORAL.

Para isso, temos alguns argumentos a fazer:

1º - O AA só se liga a SUBSTANTIVOS (Concretos ou Abstratos);

2º - O AA é um TERMO ACESSÓRIO, isto é, NÃO é exigência de nenhum termo anterior;

3º - O AA é termo ATIVO;

4º - O AA indica POSSE;

Isso é o que determina o AA.

Vejamos alguns exemplos:

a) Pedro ganhou um relógio de ouro.

DE OURO se liga a RELÓGIO, que é substantivo concreto. DE OURO é expressão caracterizadora. DE OURO = ADJUNTO ADNOMINAL.

b) O chapéu de palha esvoaçava ao vento.

DE PALHA se liga a CHAPÉU, que é subst. concreto. DE PALHA é expressão caracterizadora. DE PALHA = ADJUNTO ADNOMINAL.

c) A pergunta do aluno deixou o professor pensativo.

DO ALUNO se liga a PERGUNTA, que é subst. abstrato. DO ALUNO pode indicar POSSE, isto é, a "PERGUNTA DELE" ou naturalmente ser ATIVO, a saber, o aluno fez a pergunta, ele perguntou, portanto é ATIVO. Logo, ADJUNTO ADNOMINAL.

d) A invenção do cientista é fantástica!

DO CIENTISTA se liga a invenção, que é substantivo concreto, neste caso. DO CIENTISTA não é termo PASSIVO, e sim ATIVO, porque O CIENTISTA INVENTOU ALGO. Logo, DO CIENTISTA = ADJUNTO ADNOMINAL.

e) O livro do meu pai sumiu.

DO MEU PAI se liga a LIVRO, que é substantivo concreto. DO MEU PAI indica POSSE. Logo é ADJUNTO ADNOMINAL.

f) Comprei uma pizza de chocolate.

DE CHOCOLATE se liga a PIZZA, que é um substantivo concreto. DE PIZZA é expressão caracterizadora. Logo, ADJUNTO ADNOMINAL.

==> O AA pode ser representado por um pronome oblíquo átono (você deve estar pensando...que DJABO É ISS...). São aqueles, amigo,

ME, TE, LHE(S), NOS, VOS (o se, o, a ficam de fora)

quando indicarem posse. Sem delongas!

A correspondência tem de ser assim:

ME = MEU(S), MINHA (S)
TEU = TEU(S), TUA(S)
LHE = SEU, SUA
NOS = NOSSO (S), NOSSA(S)
VOS = VOSSO(S), VOSSA(S) = Aproveitando o ensejo, esse pronome VÓS - VOS está em fase de extinção. Como assim, professor? Sim, sim, em fase de extinção! Traga qualquer livro, revista, jornal, tese, notícia...sei lá! Procure algum texto em que há esse camarada. É muito raro.
LHES = SEUS, SUAS

Exemplos para fixar:

1. Roubaram-lhe os documentos. Isto é, Roubaram os SEUS documentos. Logo, LHE = AA.
2. O fogo me queimou a mão. Isto é, O fogo queimou a MINHA mão. Logo, LHE = AA.
3. O amor não te cega o coração? Isto é, O amor não cega o TEU coração? Logo, LHE = AA.

Encontrar uma construção sintática como a empregada nas frases supracitadas não é tarefa fácil. Tais estruturas, não obstante, podem ser encontradas em um ambiente de linguagem mais rebuscada, no qual o autor queira demonstrar habilidade linguística.

Agora, vejamos o COMPLEMENTO NOMINAL (CN).

Segundo a gramática de Luiz Antonio SACONNI, Nossa Gramática Teoria e Prática, muito conhecida entre estudantes

COMPLEMENTO NOMINAL é o complemento de um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio).

Exemplo: Juçara tem certeza DA VITÓRIA.

DA VITÓRIA completa o sentido de CERTEZA, um substantivo (portanto NOME), pois QUEM TEM CERTEZA TEM CERTEZA DE ALGUMA COISA.

E continua
outros exemplos:

a) A sala está cheia DE GENTE.

b) Tenho saudades DE TERESA.

c) Sua casa é longe DA ESCOLA.

d) A lembrança DA NAMORADA o perturbava.

e) Sairei independentemente DE SUA OPINIÃO.

Sacconi fica só na superfície... só no balanço da maré!

É preciso aprofundamento.

CELSO PEDRO LUFT, professor, gramático, filólogo, lingüista e dicionarista brasileiro, em seu livro GRAMÁTICA RESUMIDA, oferece-nos expedientes inéditos e extraordinários.

Para ele

Complemento Nominal é o termo que "completa" a significação transitiva de um nome (substantivo, adjetivo e advérbio). Pelo conteúdo TRANSITIVIDADE VERBAL (já visto em nosso Blog), percebemos que existem verbos que exigem complementos, outros não. Luft pensa da mesma forma para os nomes.






Existem certos substantivos, adjetivos e advérbios de sentido incompleto, como os verbos transitivos. Requerem, como estes, um complemento.

Exs: Referência... Alusivo... Longe ... À mente se impõe naturalmente uma pergunta: REFERÊNCIA a quê?, ALUSIVO a quê?, LONGE de quê?, de onde?. Pois bem, o complemento que responde a essas perguntas - que vai integrar essas palavras para com elas formar um todo semântico - chama-se COMPLEMENTO NOMINAL.

Exs:

Evitou a referência AOS ADVERSÁRIOS.

Discurso alusivo À DATA.

A casa fica longe DA CIDADE.

O complemento nominal vem sempre preposicionado: é um verdadeiro "OBJETO INDIRETO" de nomes (substantivo, adjetivos, advérbios).

Há duas espécies de complemento nominal:

1) DE NOMES (subst., adj., adv.) derivados de verbos transitivos;

2) DE ADJETIVOS TRANSITIVOS;

3) DE SUBSTANTIVOS ou ADVÉRBIOS DERIVADOS DESTES;

1 - VERBO TRANSITIVO + COMPLEMENTO VERBAL (objeto) --> NOME "TRANS". + COMP. NOMINAL:

O racicínio funciona assim:





Ex: O prefeito queria finalizar a construção da estrada.

Temos o substantivo CONSTRUÇÃO, que é derivado do verbo CONSTRUIR. Ora, se o verbo CONSTRUIR é verbo transitivo, isto é, um verbo que exige complemento (verbal), o substantivo derivado dele CONSTRUÇÃO também é exigirá um complemento (nominal).

Outro caso:

Ex: A suspensão do jogo gerou muita confusão.

Ora, primeiramente: SUSPENSÃO de quê?

SUSPENSÃO é substantivo derivado do verbo SUSPENDER, o qual, por sua vez, é transitivo, ou seja, exige complemento (verbal). Logo seu substantivo derivado SUSPENSÃO também exigirá um complemento (nominal). SUSPENSÃO exige uma expressão para lhe completar o sentido. É, portanto, um substantivo transitivo.

A lista continua

colocar (cartazes) --> colocação / colocador (de cartazes)

vender (móveis) --> venda / vendedor (de móveis)

inventar (um sistema) --> invenção / inventor (de um sistema)

obedecer (à lei) --> obediência / obediente (à lei)

depender (do resultado) --> dependência / dependente (do resultado)

parecer-se (com alguém) --> parecido (com alguém)

2 - ADJETIVO TRASITIVO + COMP. NOMINAL --> SUBST. TRANS. + COMP. NOMINAL

apto (ao trabalho) --> aptidão (ao trabalho)

certo (de vencer) --> certeza (de vencer)

perito (em contas) --> perícia (em contas)

louco (por viagens) --> loucura (por viagens)

> Como se viu no lugar próprio, complemento nominal é necessário ao nome (subst., adj., adv.) que o rege; o adjunto adnominal - o próprio term ADJUNTO lembra - não é necessário, é termo acessório, dispensável. É um simples anexo.

Complemento Nominal: desprezo (da morte), medo (de fantasmas) etc.

Adjunto Adnominal: portão (de ferro), folha (de árvore) etc.

> O complemento nominal pode completar substantivos, adjetivos e advérbios: lembrança (do passado), cheio (de água), perto (de casa); o adjunto adnominal qualifica ou limita apenas substantivos: mesa (de mármore), fio (de aço) etc.

> No complemento nominal há uma IDÉIA DE RELAÇÃO, de DEPENDÊNCIA, o que não existe no adjunto adnominal. Veja:

Ramos (de palmeira)

MAS

raiva, desprezo, amor, estima, raiva (de alguém ou a alguém).

É que o complemento é um elemento externo, distinto do seu regente; ao passo que o adjunto é elemento interno, indicativo de matéria, espécie, tipo, pertença. Aquele relaciona, este qualifica ou especifica.

> Tipo característicos de complemento nominal é o dependente de adjetivos transitivos, bem como de substantivos ou advérbios derivados destes:

CÚMPLICE (--> cumplicidade - de ou em um crime) ; ÁVIDO (--> avidez - de dinheiro); mau (--> maldade - com os animais) etc. Note-se que o adjetivo não pode ter adjunto adnominal.

> O tipo mais comum de complemento nominal é a transformação de um complemento verbal , quando o verbo transitivo se nominaliza, isto é, se transforma em um nome (subst., adj., adv.) transitivo.

Exemplos:

INVENTAR uma máquina --> INVENÇÃO de uma máquina;

DEPENDER de --> DEPENDÊNCIA de --> DEPENDENTE de;

CANCELAR algo --> CANCELAMENTO de algo;


==> O CN, assim como o AA, pode também ser representado por um pronome oblíquo átono.

1º - quando completar o sentido de um nome incompleto da oração. Geralmente, o CN, sendo um pronome átono, aparece em orações em cuja estrutura há um verbo de ligação. Isso, porém, não quer dizer que em outros casos seja impossível haver sua ocorrência.

Vejamos:

1. Ela me era fiel. => ELA ERA FIEL A MIM. *A MIM = CN (do nome adjetivo "FIEL"). Quem é FIEL é FIEL a alguém.

2.Eu lhe tenho respeito. => EU TENHO RESPEITO A TI. *A TI = CN (do nome substantivo "RESPEITO"). Quem tem respeito tem respeito a / por alguém.

A NOVA FASE.

Aqui poderíamos finalizar nossa aula numa boa! Por quê? Porque é exatamente isso o que diferencia AA de CN. Para nosso conhecimento, isso basta. Certamente já podemos resolver algumas questões referentes a esses dois termos. Partimos de uma explicação bem simples, clara, para depois aprofundarmos mais em saberes. Analisamos detalhadamente.

Porém, a busca do saber nos torna insaciáveis. Sempre queremos mais. O homem é insaciável por natureza. E quando sabemos (se é que sabemos), mais queremos. Há uma máxima: "Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido". É muito interessante essa frase.

Muitas vezes desejamos com tanto fervor algo e, quando conquistamos tal objetivo, parece que caímos em apatia, em profunda indiferença. Ou seja, "bem, já tenho... e agora?" E vamos à procura de dar sentido às coisas. É espetacular. Então a vida não tem sentido ... somos nós quem damos sentido a ela. O sentido da vida existe por nossa causa. O sentido da vida é darmos sentido a ela. Somos espíritos livres, aproveitando uma palavrinha de Nietzsche, então vamos além. Somos pássaros libertos. Mentalidades além de!

CAROS ALUNOS,

A PARTIR DESSE INTERVALO , ABORDAREMOS QUESTÕES SEGUNDO ANÁLISES DE ENSINO SUPERIOR. DESSA FORMA, SAIBAMOS DIFERENCIAR NOSSOS ESTUDOS.


=> APROFUNDAMENTO. CONFLITOS. OPINIÕES.


AA e CN compartilham traços comuns, como:

a) a posição à direita do núcleo;
b) a inexistência de pausa;
c) a introdução por preposição, obrigatória no complemento nominal e muito frequente no adjunto;

Evanildo Bechara, em seu livro Moderna Gramática Portuguesa, escreve

Todavia o complemento nominal está semanticamente mais coeso ao núcleo, por representar uma construção derivada mediante a nominalização, fenômeno que não ocorre no adjunto adnominal.

A criança nasceu --> O nascimento da criança
A polícia prendeu o criminoso --> A prisão do criminoso pela polícia

Essa relação impossibilita o apagamento do complemento nominal, sem que isso estabeleça a razão primordial para distinguir o complemento do adjunto (grifo do próprio autor).

O nascimento (de...?)
A prisão (de...por...?)

BECHARA depois mostra o paralelismo entre a estrutura interna do complemento nominal e do verbal, conforme já vimos em LUFT. E continua.

A seleção da preposição que introduz o complemento nominal quase sempre está determinada pela preposição que acompanha o complemento verbal.

Fui à cidade -> A ida à cidade
Penetrou na floresta -> A penetração na floresta
Incluinou-se à música -> Inclinação à música

Mas há outros que devem sua presença a traços semânticos do núcleo nominal, independentes de nominalizações. Teremos substantivos formalmente relacionados a verbos que assumem relações muito semelhantes às que ocorrem nas orações.

a saída do trem --> o trem saiu
a entrada de funcionários --> os funcionários entram

A tradição nos diz que AA é TERMO ATIVO. No entanto, após esses exemplos, percebemos o quanto é insustentável tal afirmação.

Ex: É permitida somente a entrada de pessoas autorizadas.

Em outras palavras: somente pessoas autorizadas podem entrar. DE PESSOAS AUTORIZADAS liga-se à "entrada". DE PESSAS AUTORIZADAS é termo ATIVO. É AA?

Contrariando a tradição: NÃO.

Veja:

É permitida somente a entrada.

Sem a expressão preposicionada a mensagem, realmente, fica incompleta. É evidente. Entrada de alguém. Isto é, alguém entra.

Percebemos, então, que DE PESSOAS AUTORIZADAS é termo integrante de ENTRADA, e não ACESSÓRIO, dispensável. Logo, temos COMPLEMENTO NOMINAL.

A participação dos alunos --> os alunos participam
A saída dos funcionários --> os funcionários saem
A indagação do professor --> o professor indaga

Bechara vai além. O autor propõe uma espécie de classificação de complementos nominais, assim como o faz MACAMBIRA, em sua excelente obra ESTRUTURA DO VERNÁCULO.

1. A resolução do diretor => DO DIRETOR = Complemento Nominal SUBJETIVO ATIVO (porque corresponde a um sujeito ativo: O diretor resolveu).

2. O pagamento da fatura => DA FATURA = Comp. Nominal SUBJETIVO PASSIVO (porque corresponde a um sujeito passivo: A fatura foi paga).

3. A remessa dos livros => DOS LIVROS = Comp. Nominal OBJETIVO (equivalente a alguém remeteu os livros).

4. A pergunta ao aluno foi boa => AO ALUNO = Comp. Nominal OBJETIVO INDIRETO (equivalente a alguém perguntou a ele, o aluno é o alvo da pergunta).

5. A entrega de livros pelo governo = > PELO GOVERNO = Comp. Nominal de agente.

6. A ida à Petrópolis => À PETRÓPOLIS = Comp. Nominal circunstancial.

Tudo porque, como já foi mencionado, há um estreito paralelismo entre complemento nominal e orações.

Bechara também afirma que há substantivos que selecionam termos obrigatórios, inerentes ao conteúdo de pensamento designado.
Estão neste caso de complementos inerentes:

a) Os substantivos relacionais, isto é, aqueles que não fazem referência a indivíduos , mas expressam relações entre indivíduos. É o caso dos termos de parentesco, do tipo de PAI, MÃE, FILHO, IRMÃO:

O filho da vizinha...
O pai de Eduardo...
A irmã da Kitana...

Incluem-se neste rol, naturalmente, substantivos como AMIGO, COLEGA, COMPANHEIRO:

O amigo de Cícero...
A colega de Lúcia...

Os nomes de partes do corpo e aqueles que aludem a partes contistutivas de uma entidade, física ou abstratamente consideradas:

os braços da dançarina...
o rosto da criança...
o x da questão...

Essas foram as palavras da maior autoridade viva, até hoje, em se tratando de Língua Portuguesa.
Fiquemos, pois, com seus ensinos.

Para finalizar, a NGB (Nomenclatura Gramatical Brasileira) reconhece esses dois termos (AA e CN) e nos dá "expedientes" para diferenciar um de outro. Sabe o que diz a NGP (Nomenclatura Gramatical Portuguesa) a respeito deles? Nada.
Simplesmente ela não fará essa distinção. Apenas chama aos dois de uma única coisa: COMPLEMENTO DETERMINATIVO.
Parece que é mais fácil desse jeito, hein?

Abraço, turma!

Prof. Hugo Magalhães.

sexta-feira, 6 de março de 2009

GRAU É FLEXÃO?


Olá, senhores!

Quem nunca ouviu aquela expressão "concordo com você em GÊNERO, NÚMERO e GRAU!".

Poisé, essa frase surgiu provavelmente das Gramáticas Tradicionais, em que se verifica que a flexão se dá nessas três categorias. Exemplo: quando estudamos a classe do ADJETIVO, as GTs trazem seu estudo dividido em TEORIA (o conceito de Adjetivo), TIPOS DE ADJETIVO (uniforme, biforme, simples e composto) e VARIAÇÕES DO ADJETIVO (isto é, flexão em Gênero, Número e Grau).

Não vamos muito longe.

Em Nossa Gramática Teoria e Prática, de Luiz Antonio SACONNI, encontramos:
"O adjetivo pode variar em gênero, em número e em grau" PÁGINA 143.

Porém, é mesmo GRAU um processo de FLEXÃO?

Primeiro, quando estudamos MORFOLOGIA, sabemos que existem palavras variáveis e invariáveis. Isto é, palavras que se flexionam em gênero e número, outras não. Logo, GRAU fica de fora. Percebeu? Lembra-se de DESINÊNCIA?
Exemplo: GAT + A + S => o A é a marca de gênero, portanto desinência nominal de gênero, e o S é a marca de plural, portanto desinência nominal de número. A GT não traz "desinência nominal de GRAU".

Vamos expor uma frase e, em seguida, atentar para alguns detalhes.

frase 1: Garota ESPERTA.

Por que no lugar da palavra ESPERTA não poderia ser ESPERTO? Simplesmente porque a palavra "Garota" é palavra feminina singular, então a palavra seguinte, o adjetivo, tem de concordar em gênero e número com ela.

frase1: Garota esperta. (OK)
frase 2: Garota esperto (?)
frase 3: Garota espertos (?)
frase 4: Garota espertas (?)

A única aceitável desse rol é a frase 1, sem dúvida. Isso porque está havendo aí um processo natural de concordância.

Se "garota" estivesse no plural, automaticamente o adjetivo iria concordar com ela em outra categoria: a de número.

Exemplo: GarotaS espertaS.

"ESPERTAS" está no FEMININO PLURAL, porque "GAROTAS" se encontra nessa circunstância. Então, em ESPERTAS temos uma palavra FLEXIONADA em gênero e número, visto que GAROTAS também apresenta essa FLEXÃO.

Mas se colocássemos a palavra no grau diminutivo

GarotINHA

o adjetivo "esperto" também teria que aparecer "flexionado" em grau?

Não.

Garotinha espertíssima.

Ou seja, as duas palavras têm a marca de grau. Porém, é OBRIGATÓRIO colocarmos o -ÍSSIMA em "esperto"? Não. O -A, sim, porque é a marca de GÊNERO. Então tanto faz

Garotinha ESPERTA ou ESPERTÍSSIMA ou simplesmente Garota ESPERTÍSSIMA.

Conclusão: GRAU NÃO é flexão, porque não é um processo OBRIGATÓRIO.

"A superlativação do adjetivo não obedece a qualquer vínculo de concordância com o substantivo. Ou seja, o grau acontece para o adjetivo sem que necessariamente ocorra para o substantivo. Em

Rapaz ESTUDIOSÍSSIMO, o substantivo se mantém sem marcação de grau. O aumentativo ou diminutivo também não determina qualquer processo de concordância. A não ser assim, em vez de criancinha linda, teríamos que dizer criancinha lindinha". (MOTEIRO, 66).

"A expressão do grau não é um processo gramatical em português, porque não é um mecanismo obrigatório e coerente, e não estabelece paradigmas exaustivos e de termos exclusivos em si". Mattoso Câmara Jr. (1971:50).

A flexão é sistemática, isto é, atinge de maneira geral todo e qualquer vocábulo.

O que acontece com GRAU, na verdade, é DERIVAÇÃO e não FLEXÃO.

"A derivação, ao contrário, é assistemática. Se de NEGRO se deriva NEGRUME, não se deve concluir que de VERDE deva necessariamente derivar-se VERDUME. Não é possível qualquer previsão. Ao verbo ALEGRAR, de ALEGRE, contrapõe-se ENTRISTECER, de TRISTE, não porém TRISTAR, que seria o normal, se a pauta derivacional fosse tão regular como a pauta flexional; entretanto, não existe o verbo TRISTAR. É que "uma derivação pode aparecer para um dado vocábulo e faltar para um vocábulo congênere" (Mattoso Câmara Jr). A ocorrência da forma derivada é de certo modo fortuito e casual: há, mas seria possível deixar de haver; ou não há hoje, mas é possível que haja amanhã.

Tratando-se de flexão, a coisa é diferente: houve, há e haverá obrigatoriamente.

A derivação é optativa, DERIVATIO VOLUNTARIA, no dizer de VARRÃO, porque depende da vontade do falante. Se quisermos, nunca empregaremos o sufixo -ÍSSIMO, diremos, por exemplo, É MUITO LINDO em lugar de É LINDÍSSIMO; nem o substantivo LINDEZA: É UMA COISA LINDA substitui perfeitamente É UMA LINDEZA. O singular ou o plural, o masculino ou feminino, estes não podem ser evitados. É impossível empregar um nome sem a marca do gênero e do número.

A flexão é obrigatória, DERIVATIO NATURALIS, no dizer de VARRÃO, por ser imposta pela natureza da língua. Não podemos utilizar um substantivo português sem obrigatoriamente usá-lo sob certa forma numérica: o número acompanha infalivelmente qualquer substantivo português.
Em chinês é diferente, e o substantivo pode ser usado sem estar ajoujado à idéia de número. É que normalmente o substantivo português se apresenta com dupla forma, ou em parelha, de tal modo que, dada uma, se pode facilmente encontrar a outra: LIVRO - LIVROS - CASA - CASAS, ou vice-versa. É um paralelismo rígido que molda toda a categoria nominal do português.

Por ser optativa, a derivação abre perspectativa estilística; por ser obrigatória, nada tem a flexão com o estilo". (JOSÉ REBOUÇAS MACAMBIRA, 1974).

GRAU é um mecanismo de DERIVAÇÃO, não de FLEXÃO. Então, em se tratanto de palavras variáveis, temos, portanto, aquelas que variam em GÊNERO e NÚMERO, somente.

Por enquanto, só.

Abraços!

Hugo Magalhães.

terça-feira, 3 de março de 2009

REGÊNCIA VERBAL


Olá a todos!

Bem, vamos entender hoje o conteúdo chamado REGÊNCIA VERBAL (= PREDICAÇÃO VERBAL = TRANSITIVIDADE VERBAL).

O título é sugestivo: "deve ser alguma coisa relacionada ao verbo..." Sim, exatamente. A idéia primeira que nos ronda o pensamento é essa mesma.
Na nossa ilustração acima, há um erro de regência: o verbo REFERIR-SE exige uma preposição ( A ), a qual, podemos perceber, não aparece na frase. Já que é uma EXIGÊNCIA, teria, portanto, de aparecer.
Corrigindo, então:
Os estudantes A que me referi...


Vamos arrolar duas sentenças:

frase 1: Pimenta arde.
frase 2: Aquele estudante pratica.

Nas frases acima, temos os verbos ARDER e PRATICAR. É evidente que o verbo ARDER não exige nenhuma palavra ou expressão para lhe completar o sentido, pois somente "arder" por si próprio é completo, já contém seu pleno significado. Um nativo da língua portuguesa sente que a frase está gramaticalmente completa. É inerente, intríseco. Simplesmente o verbo em questão tem o sentido absoluto, pleno, completo, portanto.
Contudo, ao analisar o verbo PRATICAR, percebemos a diferença. A frase 2 está incompleta gramaticalmente. Ora, quem pratica pratica ALGUMA COISA, pratica ALGO. Afinal, "o que aquele estudante PRATICA?". A pergunta é inevitável: "pratica O QUÊ?" O verbo, nesse caso, EXIGE COMPLEMENTO, exige alguma expressão para lhe completar o sentido. O verbo PRATICAR por si só tem o sentido incompleto.

Agora nesses exemplos

1. Pimenta ARDE.
2. Aquele aluno pratica FUTEBOL.

Ao verbo da frase 1 vamos chamar de INTRANSITIVO; enquanto o da frase 2, TRANSITIVO. CONCLUSÃO: VERBO INTRANSITIVO (V.I) é o verbo que NÃO EXIGE COMPLEMENTO, ele por si só já tem sentido completo. VERBO TRANSITIVO (V.T), por sua vez, EXIGE COMPLEMENTO e é possível, por isso, reconhecê-lo na frase.
Percebemos o complemento do verbo PRATICAR. FUTEBOL, portanto, é o complemento do verbo (= verbal). A esse COMPLEMENTO VERBAL, no caso, chamaremos de OBJETO.

Assim:

1. Pimenta arde (= V.I).

2. Aquele aluno pratica (= VT) futebol (= OBJETO).

Se tivermos a frase 3

frase 3: Aquele aluno gosta de futebol.

Nesse caso, é direta a pergunta: QUEM GOSTA GOSTA DE ALGUMA COISA ou GOSTA DE ALGO. O verbo GOSTAR exige complemento, e mais: a expressão que lhe completa o sentido está na frase, é possível reconhecê-la. DE FUTEBOL é o complemento verbal = OBJETO. Observemos agora:

3. Aquele aluno gosta (= VT) de futebol (= OBJETO).

Então, tanto na frase 1 quanto na frase 3 temos verbos TRANSITIVOS, pois exigem complementos e os reconhecemos na frase. Expondo-os:

frase 2: Aquele aluno pratica (= VT) futebol (= OBJETO).

frase 3: Aquele aluno gosta (= VT) de futebol (= OBJETO).

Mas, será que há diferenças entre eles? Certamente. O detalhe está no objeto. Ora, o objeto da frase 2 não tem preposição; já em 3 tem. Ao objeto SEM PREPOSIÇÃO chamaremos de OBJETO DIRETO (O.D) e o verbo PRATICAR será VERBO TRANSITIVO DIRETO (V.T.D); ao objeto COM PREPOSIÇÃO, OBJETO INDIRETO (O.I) e o verbo GOSTAR será VERBO TRANSITIVO INDIRETO (V.T.I). Em outras palavras, VTD é o verbo que exige complemento SEM PREPOSIÇÃO (OD); VTI é o verbo que exige complemento COM PREPOSIÇÃO (OI).

Na prática, fica assim:

2. Aquele garoto pratica (= VTD) futebol (= OD).

3. Aquele garoto gosta (= VTI) de futebol (= OI).

Com a quarta frase

frase 4: Aquele aluno entregou os testes aos pais.

Aqui, temos um verbo que exige dois complementos. Façamos a pergunta: QUEM ENTREGA ENTREGA ALGO A ALGUÉM. Dá para reconhecer seus objetos? Sim! O verbo ENTREGAR exige, portanto, dois complementos: um sem preposição (direto) outro com preposição (indireto). Logo, o verbo é BITRANSITIVO, ou TRANSITIVO DIRETO e INDIRETO ao mesmo tempo.
Vejamos o exemplo analisado.

4. Aquele aluno entregou (= VTDI) os testes (= OD) aos pais (= OI).

Fiquemos com as palavras do mestre Macambira:

"TRANSITIVO é sinônimo de predicação incompleta: transita em procura de alguma coisa para completar-se; INTRANSITIVO é sinônimo de predicação completa: não transita, não sai do lugar, porque, para completar-se, não precisa de nada; basta-se a si mesmo, é completo por si próprio".

1º Quadro sintético:

VI = Verbo que não exige complemento.
VT = VTD exige (OD) - VTI exige (OI) - VTDI exige (OD e OI)

Agora, analisemos a frase 5:

frase 5: Minha família é feliz.
Nesse exemplo temos o verbo SER, o qual liga ao sujeito o adjetivo FELIZ. Sendo assim, FELIZ não é um complemento do verbo, e sim um PREDICATIVO DO SUJEITO. O verbo SER, nesse caso, será chamado de VERBO DE LIGAÇÃO.

Outros casos:


frase 6: Meu time está EXCELENTE!

frase 7: A professora ficou ANIMADA.
frase 8: Os alunos permanecem CALADOS.
frase 9: Os alunos parecem INTERESSADOS.
frase 10: A criança continua SORRIDENTE.

PRIMEIRO DETALHE:

VERBO DE LIGAÇÃO (V.L) é o verbo que LIGA uma CARACTERÍSTICA, ou um ATRIBUTO, ou uma QUALIDADE, que concorda em gênero e número com o sujeito. A coisa LIGADA será chamada de PREDICATIVO DO SUJEITO (P.S).


LEMBRE-SE: todo verbo de LIGAÇÃO SEMPRE exige PREDICATIVO DO SUJEITO. RESUMO: VL + PS

Analisando agora as frases
frase 5: Minha família é (= VL) feliz (= PS --> concorda com o sujeito).
frase 6: Meu time está (= VL) excelente (= PS --> concorda com o sujeito).
frase 7: A professora ficou (= VL) animada (= PS --> concorda com o sujeito).

frase 8: Os alunos permaneceram (= VL) calados (= PS --> concorda com o sujeito).

frase 9: Os alunos parecem (= VL) interessados (= PS --> concorda com o sujeito).

frase 10: A criança continua (= VL) sorridente (= PS --> concorda com o sujeito).
Existem casos em que o PS pode ser representado por uma expressão preposicionada e, por isso, pode ficar invariável.
--> Aquela mulher está sem emprego.
--> Essa mulher ficou sem recursos financeiros.
--> Nós ficamos com sede.

--> Elas permaneceram com fome.
SEGUNDO DETALHE:
VERBO DE LIGAÇÃO pode indicar diferentes ESTADOS. Muitos o chamam de VERBO DE ESTADO. Isso não é de todo correto. O certo é que ele pode, sim, indicar alguns estados.
Vejamos:
frase 11: Aquele homem É doente = ESTADO PERMANENTE


frase 12: Aquele homem ESTÁ doente = ESTADO PASSAGEIR

frase 13: Aquele homem FICOU doente = MUDANÇA DE ESTADO

frase 14: Aquele homem CONTINUA doente = CONTINUIDADE DE ESTADO

De fato, o VERBO DE LIGAÇÃO pode indicar diferentes estados. Porém, vamos por partes:


1º - VL é o verbo que LIGA algo ao sujeito;

2º - VL pode indicar alguns ESTADOS;


Neste caso:
frase 15: Aquele homem adoeceu.
Temos nesse exemplo um Verbo de Ligação? Não, em absoluto. Indica estado o verbo? Sim. Mas, então, por que esse verbo não é de ligação? Simples: ELE NÃO LIGA NADA AO SUJEITO. ONDE ESTÁ O PREDICATIVO DO SUJEITO? Porque todo verbo de ligação tem que ter PS!


CONCLUSÃO: não se trata de um VL, e sim de um VERBO INTRANTISITO (VI).
Que tenhamos cuidado!!!

DESAFIO:
frase 16: Aquele prédio foi destruído.

O verbo FOI, que é o verbo SER, é de Ligação? DESTRUÍDO é PREDICATIVO DO SUJEITO?
NÃO!
DICA CAMPEÃ: O VL tem um sujeito neutro, isto é, NEM ATIVO (aquele que PRATICA ação) NEM PASSIVO (aquele que SOFRE ação).


Percebemos que o sujeito AQUELE PRÉDIO é PASSIVO, ou seja, sofre ação. Logo, o verbo NÃO é de Ligação.

Os principais VERBOS DE LIGAÇÃO são:

SER - ESTAR - FICAR - CONTINUAR - PERMANECER - PARECER

No entanto, temos que ficar atentos!

Existem verbos que ora são de Ligação ora não o são:
frase 17: O aluno VIROU a cadeira.
frase 18: O aluno VIROU funcionário público.
Ora, o verbo VIRAR não tem a mesma transitividade. No primeiro caso, é VTD. No segundo é VL. O aluno não era funcionário público, agora ele é. Então houve uma mudança de estado. FUNCIONÁRIO PÚBLICO se liga ao sujeito, refere-se a ele.


Detalhando
frase 17: O aluno virou (= VTD) a cadeira (= OD).
frase 18: O aluno virou (= VL) funcionário público (PS).

Saber se um verbo é ou não de Ligação dependerá somente do contexto. Verbos como ANDAR, VIVER, VIRAR, ACABAR, SAIR, ENTRAR, CAIR, SERVIR, FINGIR-SE DE, PASSAR POR, BANCAR entram nesse rol.

frase 19: Maria vive cansada.

frase 20: Maria vive uma vida miserável.

frase 21: Maria vive em Fortaleza.

Nesses três casos, a transitividade do verbo VIVER é diferente. Em 19, temos VL (cansada é PS), em 20 temos VTD e em 21 temos VI (em Fortaleza é Adjunto Adverbial).

=> GRANDES CONTRADIÇÕES DA GRAMÁTICA TRADICIONAL - PARTE 1

frase 22: Tom Cavalcante mora em São Paulo.

Como a Gramática Tradicional analisa a transitividade do verbo MORAR em questão? Bem, pasmem: para a GT esse verbo É INTRANSITIVO. Como assim?! Isso mesmo.

frase 22: Tom Cavalcante mora (= VI) em São Paulo (= ADJUNTO ADVERBIAL DE LUGAR).

A GT faz uma análise somente observando o sentido que a expressão EM SÃO PAULO sugere, o que é lamentável. Realmente, ela exprime lugar. E quanto à transitividade do verbo? MORAR, de fato, não exige complemento? Ora, QUEM MORA MORA EM ALGUM CANTO, MORA EM ALGUM LUGAR! Sem isso, frase se tornaria incompleta, sem sentido, agramatical.

*frase 22: Tom Cavalcante mora. (?)

Não há dúvidas de que o verbo exige, sim, um complemento. EM FORTALEZA é uma exigência de MORAR, logo seria um OBJETO INDIRETO, naturalmente. Observemos:

frase 23: Tom Cavalcante visitou São Paulo.

Faz-se a pergunta: QUEM VISITA VISITA ALGUM CANTO, VISITA ALGUM LUGAR, VISITA ALGUÉM. "Visitar" = VTD e "São Paulo" = OD.

O raciocínio é o mesmo para a frase 22! A análise "humana", portanto, seria:

frase 22: Tom Cavalcante mora (= VTI) em São Paulo (= OI).

Porém, não é essa a "correta" análise, senhores.

Reitero: para a GT, a análise será desta forma mesmo:

-> Tom Cavalcante (= SUJEITO) mora (= VI) em São Paulo (= ADJUNTO ADVERBIAL DE LUGAR).

Sem palavras. É lamentável. Toda a linha de raciocínio é desmantela, em outras palavras "vai por água abaixo...".

A importância foi dada à expressão EM SÃO PAULO. Como indica lugar, a GT entende como Adjunto Adverbial de Lugar. Então sendo Adj. Adv. de Lugar, o verbo não poderia ter outra transitividade a não ser INTRANSITIVO. E é exatamente nesse ponto em que há a contradição com toda a teoria vista. Somos a favor de que, certamente, a expressão indica lugar, sim. Mas, primeiramente, temos que analisar o VERBO. O verbo é o termo principal. Tudo começa pelo Verbo. Se confrontarmos frases como as seguintes, veremos as evidentes diferenças.

frase 22: Oswald de Andrade morou em São Paulo.

frase 23: Oswald de Andrade morreu em São Paulo.

Somente na frase 23 temos um Adjunto Adverbial de Lugar, simplesmete porque tal expressão não é uma exigência do verbo, o qual é verdadeiramente INTRANSITIVO. "Oswald de Andrade morreu DE INFARTO (Adjunto Adverbial de Causa)", "Oswald de Andrade morreu DURANTE A MADRUGADA (Adjunto Adverbial de Tempo)" etc. nesses casos temos expressões dispensáveis, que não são exigências em si do verbo MORRER, assim como EM SÃO PAULO. Afinal, quem MORRE MORRE. E ponto final. Saber ONDE morreu, DE QUÊ morreu, QUANDO morreu, são perguntas secundárias, dispensáveis, portanto, prescindíveis ao verbo.

Mas na frase 22, é fácil notar que o verbo é Transitivo, porque EM SÃO PAULO não é dispensável. É a expressão necessária para completar o sentido de MORAR, que seria VTI.

Apesar de tudo isso, de todas as provas cabíveis, a GT é irredutível: o verbo MORAR será VI, e fim de papo.

==> RECURSO PARA ENCONTRAR O ADJUNTO ADVERBIAL DE LUGAR:

POR/A/DE/ + ONDE?

A resposta será um ADJUNTO ADVERBIAL DE LUGAR.

Exemplos:

1. Minha família veio de Brasília. => "veio DE ONDE?" R= DE BRASÍLIA. Logo é Ad. Adv. Lugar. O que nos resta é considerar, portanto, o verbo INTRANSITIVO, e não Transitivo Indireto.

2. Minha família foi a Brasília. => "foi AONDE?" R= A BRASÍLIA. Logo é Adj. Adv. de Lugar. Verbo IR é INTRANSITIVO.

3. Minha família está em Brasília. => "está ONDE?" R= EM BRASÍLIA. Logo, é Adj. Adv. Lugar. Verbo ESTAR é INTRANSITIVO.

Quer dizer que Adj. Adv. Lugar só aparece com verbo Intransitivo? NÃO!

Veja:

O estudante achou o livro em cima da mesa. "Achou o livro ONDE?" R= EM CIMA DA MESA. Esse termo será Adj. Adv de Lugar, contudo o verbo ACHAR NÃO é Intransitivo, e sim TRANSITIVO DIRETO, pois QUEM ACHA ACHA ALGUMA COISA, ACHA ALGO.

=> VERBO TRANSOBJETIVO:

É um tipo de verbo Transitivo direto, cujo objeto direto comporta um predicativo do objeto. Entre o objeto direto e o predicativo objeto está implícito um verbo de ligação, que se pode facilmente explicitar:

O prefeito nomeou Luciano secretário.

1. O prefeito nomeou Luciano.

2. Luciano É secretário.

É um verbo transitivo cujo OBJETO não é suficiente para completar o seu sentido. É preciso, portanto, um complemento atributivo para, assim, integrar o sentido da frase.

Exemplo:

Os alunos acharam a professora atenciosa.

ATENCIOSA é o complemento atributivo referente à PROFESSORA. Então, "atenciosa" é o verdadeiro PREDICATIVO DO OBJETO (P.O). Se a frase fosse: Os alunos acharam a professora. O sentido seria totalmente diferente. Nessa caso, parece que estavam procurando a professora, o que não é a correta interpretação da frase. O sentido original sugere uma espécie de julgamento feito pelo sujeito, no caso, OS ALUNOS.

=> DICA CAMPEÃ: IDENTIFICANDO O PREDICATIVO DO OBJETO:

1º - O que você acha que é P.O aceita ficar entre o VERBO e o COMPLEMENTO. Retomando a frase supracitada e aplicando a DICA CAMPEÃ. Vejamos:

Ex1: Os alunos acharam ATENCIOSA a professora. Logo é realmente P.O.

Se isso não for possível é porque não é P.O! Vejamos:

* Os alunos riscaram o quadro BRANCO => Os alunos riscaram BRANCO o quadro. (????) Logo não é P.O, e sim ADJUNTO ADNOMINAL (assunto para outro dia).

2º - Transforme o OBJETO em pronome, se a frase fizer sentido é porque aquilo que você acha que é P.O é realmente P.O. Caso contrário não é.

Ex2: Os alunos acharam-na (= a professora) ATENCIOSA. => Faz sentido a frase. Logo é P.O.

Mas

* Os alunos riscaram-no (= o quadro) BRANCO. => Não faz sentido a frase. Logo não é P.O. Nesse caso, será ADJUNTO ADNOMINAL.

Na verdade, o Predicativo do Objeto é um atributo dado pelo sujeito ao objeto.

Os principais verbos TRANSOBJETVOS são:

ACHAR - CONSIDERAR - JULGAR - NOMEAR - ELEGER - CHAMAR - TER (= JULGAR) - FAZER - TORNAR - APELIDAR - TACHAR - CLASSIFICAR.

Surgindo um desses verbos, fique com o pé atrás! Porque, no geral, haverá um Predicativo do Objeto.

Espero que esse novo expediente tenha servido para elucidar algumas questões de português em mente. E mais: qualquer dúvida, seja bem-vindo(a), fique à vontade.


Aqui é o lugar para debatermos acerca de quaisquer assuntos referentes à Língua Portuguesa. Portanto, sinta-se em casa. Lembre-se de que somos seres extraordinários. A procura do saber nunca é demais. Sentimos sede. Sempre.

Por enquanto é só.

Abraços!

Prof. Hugo Magalhães.




































sábado, 28 de fevereiro de 2009

CLASSES DE PALAVRAS


Olá, senhores!

Hoje, vamos debater a respeito das "Classes de Palavras".

A Gramática Tradicional (GT) é um livro, que, a cada página, conteúdo apresentado, surpreende por oferecer teorias que não resistem à menor análise mais detalhada. É um livro, cujos conceitos são obsoletos, arcaicos e refutáveis. Para isso, temos que compreender a teoria e, em seguida, objetá-la.

Segundo os incríveis professores da UFC Paulo Mosâneo e Claudete.
"Qualquer tarefa de classificação que se venha a fazer, na vida ou na Linguística, requer a adoção de critérios. Assim, são três os critérios de classificação vocabular: o mórfico ou formal, sintático ou funcional e o semântico.

O critério MÓRFICO ou formal se baseia na flexão e derivação por que uma palavra pode caracterizar-se. Sendo assim, uma classificação que divide os vocábulos em variáveis e invariáveis, por exemplo, está usando um critério formal, porque se fundamenta na possibilidade ou não de flexão. Esse critério estuda a palavra isoladamente.

O critério SINTÁTICO ou funcional se atém à função da palavra em relação a outras palavras num contexto. É o critério sintático que se emprega quando se diz que "o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo", porque se está falando da relação do adjetivo com o substantivo, está-se observando o comportamento do adjetivo referente a outro vocábulo.


O critério SEMÂNTICO se baseia no significado extralinguístico do vocábulo. "Substantivo é a palavra que nomeia os seres", nesse caso, emprega-se o critério semântico".


Isto é, na teoria e na prática, deveriam ser utilizados esses três critérios para se fazer uma análise cabal dos vocábulos. Na GT, porém, a teoria baseia-se, em geral, no critério semântico, o que resulta fatalmente em muitos equívocos.


É fácil encontrar "Adjetivo é a palavra que exprime qualidade" em muitos compêndios de português, como também há muitos professores (lamentavelmente) que ensinam (insistem!) que "Adjetivo é sinônimo de qualidade"! Ora, então teríamos que analisar as palavras BONDADE, BRANCURA E PUREZA como verdadeiros adjetivos, o que, de fato, não o são.


Será? Bem, BONDADE é qualidade de bom; BRANCURA, qualidade de branco e PUREZA, qualidade de puro. Então, como não seriam ADJETIVOS?!


Na verdade, são SUBSTANTIVOS ABSTRATOS, simplesmente.


-> ADJETIVO é a palavra variável que modifica fundamentalmente o substantivo, com qual concorda em gênero e número, caracterizando-o, particularizando, restrigindo-lhe a significação. Aqui, temos uma análise pelos três critérios. Mórfica: "variável"; Sintática: "concorda". Semântica: "modifica...", "caracterizando-o". Uma simples teoria: ADJETIVO É A PALAVRA variável QUE CARACTERIZA O SUBSTANTIVO.


Quando escutamos "palavra que indica qualidade" é um tanto estranho, porque, quando pensamos em "qualidade", pensamos em coisas de natureza boa. Por isso, em muitos livros encontramos exemplos infantis como "casa AMARELA", "garota INTELIGENTE", "camisa BONITA" etc. Se deparamos com "garota TERRÍVEL", "casa AMALDIÇOADA", "camisa FEDIDA", dificilmente consideraríamos essas palavras em maiúsculo adjetivos, pois é embaraçoso admiti-las sendo "qualidades". Para isso, fato é que já existem gramáticas que trazem "É A PALAVRA QUE EXPRIME QUALIDADE (E DEFEITO)". Afinal, é ou não é para rir?! E quanto a adjetivos como "dia ATUAL", "conforto PSÍQUICO", "empréstimo BANCÁRIO", são adjetivos porque indicam "qualidades"?!


Analisar somente pelo critério Semântico é arriscado. E, infelizmente, as GTs valorizam muito esse aspecto. Vejamos:


-> "SUBSTANTIVO é a palavra que nomeia os seres" (Cegalla, 1980).


Houve uma questão de concurso na qual se pedia que o candidato apontasse a correta alternativa quanto ao exato número de substantivos no enunciado: "Ficou num canto, sem retratos e sem aplausos, urso burro sem serventia... O tempo passou. Veio a crise econômica, e o circo foi à falência". Um estudante preparado acertaria a questão a partir da teoria fornecida? Nesse caso, teria que contar quantos seres existem aí!


-> "NUMERAL é a palavra que exprime número, número de ordem, múltiplo ou fração"


DÚZIA, CENTO, MILHAR, METADE seriam NUMERAIS, portanto? Não, em absoluto. São SUBSTANTIVOS. Como provar? Simples. O SUBSTANTIVO é núcleo de um grupo nominal, no qual haverá palavras que concordarão com ele. Exemplo:


Ex1: Duas DÚZIAS..., O CENTO do salgado..., Acertei nO MILHAR..., Essa METADE menor...


-> "VERBO é a palavra que exprime AÇÃO".


Muitos professores, infelizmente, ainda ensinam valendo-se dessa teoria. Ora, existem palavras que exprimem AÇÃO, porém não são, em especial, verbos.


Palavras como DESEMBARQUE, COMBATE e ABRAÇO indicam ações, e, no entanto, não se enquadram na classe dos verbos. São, na verdade, SUBSTANTIVOS. E nem todo verbo indica obrigatoriamente AÇÃO. O verbo VER, por exemplo, não exprime uma ação, e sim um PROCESSO. Verbos sensitivos (referentes aos sentidos) caracterizam-se por esse aspecto.


-> "PRONOME é a palavra que substitui o nome (substantivo) ou refere-se a ele". Isso requer análise mais aprofundada.


Colocando em prática:


CORTEI AQUELAS TRÊS MAÇÃS PEQUENAS E COLOQUEI-AS SOBRE A MESA.


As é pronome, mas não substitui unicamente o substantivo MAÇÃS, e sim o grupo nominal AQUELAS TRÊS MAÇÃS PEQUENAS. São raras as vezes em que um pronome substitui realmente um nome.


Existem PRONOMES que NÃO SUBSTITUEM nenhum nome e, mesmo assim, são considerados como tal, e palavras que não são pronomes, mas que têm essa propriedade.


EU VISITEI FORTALEZA.


Todos sabem que eu é pronome. Mas que nome substitui? Só vamos considerá-lo PRONOME, porque se refere a uma pessoa do discurso. Só.


ANO PASSADO, VISITEI FORTALEZA. É MUITO BOM.


É indiscutível que substitui o nome FORTALEZA, porém a GT chama ADVÉRBIO (de lugar).


A classe PRONOME talvez seja a que mais necessite de uma revisão. Não vamos detalhar, porque, assim, alongaríamos demais o assunto. Fiquemos somente nesses simples exemplos do problema.


-> "ARTIGO é a palavra que se antepõe aos substantivos que designam seres determinados (o, a, os, as) ou indeterminados (um, uma, uns, umas)".


Simplesmente, muitos dizem que O, A, OS, AS são os ARTIGOS DEFINIDOS (porque definem o substantivo) e UM, UMA, UNS, UMAS são os INDEFINIDOS (porque indefinem o substantivo).


Qual seria, portanto, a diferença entre essas sentenças


O garoto - um garoto? A resposta é rápida: no primeiro, o sentido do substantivo é definido, particularizado; já o segundo, não.


Para a GT, ARTIGO é a palavra que serve para DEFINIR ou INDEFINIR o sentido do substantivo.


E quanto a


ESTE garoto - ALGUM garoto? A idéia de ESTE é de definição, particularização. Já ALGUM é de indefinição. Seriam, então, artigos? Não. São pronomes. Nesse caso, não seria melhor colocar essa "classe" dos artigos dentro da dos pronomes, formando, assim, uma subclasse?


-> "ADVÉRBIO é a palavra invariável que indica circunstância".


Essa talvez seja a teoria mais insustentável de todas. Após algumas páginas sobre Advérbio, é inevitável não verificar um tópico no qual diz FLEXÃO DO ADVÉRBIO (grau diminutivo e aumentativo). Ora, se tal palavra caracteriza-se por ser INVARIÁVEL, por que FLEXÃO?! Mais: a GT considera GRAU sendo um processo de FLEXÃO (AINDA NESTE BLOG VAMOS DISCUTIR SE GRAU É OU NÃO UM PROCESSO FLEXIONAL).


Em algumas GTs, existe apenas o tópico GRAU, como camuflagem da incoerência, porque o tópico "FLEXÃO DO ADVÉRBIO" é muito atrevido.


A GT traz o Advérbio como a palavra que pode se ligar a Verbo, Adjetivo e Advérbio. Porém, há, na nossa língua, casos muito comuns em que o Advérbio pode se ligar a outras palavras ou a nenhuma palavra.


FRASE1: SÓ ele sabe a verdade. (o adv. se liga ao pronome ele)


FRASE2: INFELIZMENTE, ele não resistiu aos ferimentos. (o adv. se refere à opinião do falante).


Quanto à classificação, vamos fazer o que fizemos com o PRONOME: sem mais detalhes, pois o assunto seria demais extenso.


- > "INTERJEIÇÃO é a palavra que exprime emoção". EXEMPLO: Ah!, Oi!, Ufa etc.


Primeiro: interjeição é palavra? Na verdade, seria mais adequado analisarmos como uma frase nominal.


Não haverá comentários sobre PREPOSIÇÃO e CONJUNÇÃO, visto que não são alvos tão evidentes de análise.


Aqui, escolhemos apenas as classes que mais trazem problemas quanto à teoria gramatical.


Fica claro, portanto, que, para o estudo das classes de palavras, não podemos empregar somente o critério semântico. Temos que analisar as palavras no ambiente em que estão inseridas. Sempre. A análise não pode ser, então, somente MÓRFICA, e sim MÓRFICO-SINTÁTICA.


Vejamos:


Não sabia que você era um doutor filósofo.


Analisando separadamente as palavras em negrito, concluiremos que são dois substantivos. O dicionário não negará: doutor é substantivo, assim como filósofo. Porém, no caso em questão, teremos: doutor = substantivo e filósofo = adjetivo. Porque "filósofo" é a palavra que determina "doutor", esta, portanto, determinada; "filósofo" retringe a significação de "doutor".


Agora, se tivéssemos:


Não sabia que você era um filósofo doutor. Evidentemente, teríamos o contrário.


Mais exemplos:


Frase1: GAROTA, FALA ALTO!


Frase2: ELA SEMPRE GOSTOU DE HOMEM ALTO.


Só sabemos quem é ADVÉRBIO e quem é ADJETIVO não porque um indica "circunstância" ou "qualidade", e sim pela relação de combinação entre as palavras.


Na frase1, temos um ADVÉRBIO, porque se refere ao VERBO, modificando-lhe o sentido.


Já na frase2, temos um ADJETIVO, porque concorda com o SUBSTANTIVO, restrigindo-lhe a significação, particularizando, caracterizando.


Portanto, devemos analisar as palavras a partir do ambiente em que estão. Assim, perceberemos seu comportamento e, consequentemente, sua correta classificação.


Por enquanto, só.


Abraços!


Hugo Magalhães.




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

PRIMEIRAS IMPRESSÕES


É verdade que o Ensino da Língua Portuguesa nunca convenceu, atraiu, e muito menos, fascinou estudantes de todo o Brasil, principalmente a forma como ele é oferecido. É raro também encontrarmos alguém que se identifique com o que dizem as Gramáticas do nosso idioma. Então, a que se deve tanta ojeriza? Quem nunca ouviu frases do tipo "ah, ODEIO Português", "a língua portuguesa é uma das mais difíceis de aprender..."; "português é muito CHATO", e blá-blá-blá!
Isto é fato: alguma coisa está errada. Quem está errado? O aluno, o professor ou a gramática?
Bem, o problema reside no sistema.

Primeiro: somos alfabetizados, porém não Letrados. Alfabetização é diferente de Letramento.


"Letramento é, de certa forma, o contrário de analfabetismo. Aliás, houve um momento em que as palavras letramento e alfabetismo se alternavam, para nomear o mesmo conceito. Ainda hoje há quem prefira a palavra alfabetismo à palavra letramento - eu mesma acho alfabetismo uma palavra mais vernácula que letramento, que é uma tentativa de tradução da palavra inglesa literacy , mas curvo-me ao poder das tendências lingüísticas, que estão dando preferência a letramento. Analfabetismo é definido como o estado de quem não sabe ler e escrever; seu contrário, alfabetismo ou letramento, é o estado de quem sabe ler e escrever. Ou seja: letramento é o estado em que vive o indivíduo que não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: sabe ler e lê jornais, revistas, livros; sabe ler e interpretar tabelas, quadros, formulários, sua carteira de trabalho, suas contas de água, luz, telefone; sabe escrever e escreve cartas, bilhetes, telegramas sem dificuldade, sabe preencher um formulário, sabe redigir um ofício, um requerimento. São exemplos das práticas mais comuns e cotidianas de leitura e escrita; muitas outras poderiam ser citadas" professora Magda Becker Soares, retirado do site NOSSA LÍNGUA, NOSSA PÁTRIA.


Segundo: a escola considera a Gramática um fim, e não um meio. É sabido que quem sabe escrever bem não é porque tem necessariamente o pleno domínio das regras gramaticais. A leitura contribui um bocado. A Gramática, portanto, é apenas um meio.

Na escola, o professor comete o erro de entender como a língua aquela modalidade culta (culta? parece mais Oculta...) - literária ou não - refletida no código escrito ou na prática oral que lhe seguia o modelo, de todo repudiando aquele saber linguístico aprendido em casa, intuitivamente, transmitido de pais a filhos.


Fiquemos, agora, com as palavras do mestre Bechara:


"Hoje, por um exagero de interpretação de 'liberdade' e por um equívoco em supor que uma língua ou uma modalidade é 'imposta' ao homem, chega-se ao abuso inverso de repudiar qualquer outra língua funcional, que não seja aquela coloquial, de uso espontâneo na comunicação cotidiana.

No fundo, a grande missão do professor de língua materna - no ensino da língua estrangeira o problema é outro - é transformar seu aluno num poliglota dentro da própria língua, possibilitando-lhe escolher a língua funcional adequada a cada momento de criação e até, no texto em que isso se exigir ou for possível, entremear várias línguas funcionais para distinguir , por exemplo, a modalidade linguística do narrador ou as modalidades praticadas por seus personagens.

(...) o ensino dessa gramática escolar, normativa, é válido, como o ensino de uma modalidade "adquirida", que vem juntar-se (não contrapor-se imperativamente!) a outra, "transmitida", a modalidade coloquial ou familiar.

Conclusão: Acredito que o ensino da gramática normativa resulta da possibilidade de que dispõe o falante de optar, no exercício da linguagem, pela língua funcional que mais lhe convém à expressão. Resulta, portanto, da "liberdade" de escolha que oferece uma língua histórica considerada em sua plenitude".


Deve-se ensinar gramática na escola, mas com o verdadeiro objetivo dito pelo mestre Evanildo Bechara. Os alunos têm de ter consciência não só da linguagem adquirida em casa, mas também daquela que se encontra em outros ambientes mais formais. A linguagem da gramática seria, então, a linguagem "das boas maneiras". Aquela que você utilizará quando pedir alguma informação a alguém, quando ministrar uma palestra, quando apresentar um trabalho em equipe, quando participar de uma entrevista de emprego ou for entrevistado simplesmente.


Isso, sim, seria o verdadeiro aprendizado da língua. Porém, o que é evidente no dia-a-dia é tratar a Gramática como uma bíblia sagrada, um livro a ser seguido cegamente. Gramática Tradicional não é nada mais nada menos do que um compêndio impregnado de regras contraditórias, arcaicas e insustentáveis, que se diz "instrumento do bem falar e escrever".

No cotidiano, deparamos com vários livros em que se lê "Não erre mais!", "Escreva e fale corretamente", "Português sem complicações" etc. No mercado editorial, há em abundância livros dessa natureza. E fazem, sim senhor, sucesso. Eles seduzem. A verdade é que só mudam a capa.

Professores de Gramática fazem sucesso na mídia. E onde estão os linguístas, os verdadeiros estudiosos da linguagem? Por que não aparecem? Para a mídia, esses são parasitas, "não sabem o que falam". Blasfemos. Sim, porque, sendo a Gramática uma "bíblia", considerando-se o português como algo "ortodoxo", quem a ela é contrário é um "anarquista", "ocioso", "defensor do vale-tudo", um herege!


Vejamos ler o que escreveu Marcos Bagno, doutor em linguística pela PUC, à revista VEJA (4 de novembro de 2001) e, consequentemente, criticou PASQUALE CIPRO NETO.



"Há um absoluto despreparo de jornalistas e comunicadores para tratar do tema (um exemplo gritante disso veio a público em outra edição recente de VEJA, a de número 1710, com a reportagem "Todo mundo fala assim"). Se falo de contramão é porque - passados mais de cem anos de surgimento, crescimento e afirmação da Lingüística moderna como ciência autônoma -, a mídia continua a dar as costas à investigação científica da linguagem, preferindo consagrar-se à divulgação e sustentação das "superstições, mitos e estereótipos" que circulam na sociedade ocidental há mais de dois mil anos. Isso é ainda mais surpreendente quando se verifica que, na abordagem de outros campos científicos, os meios de comunicação se mostram muito mais cuidadosos e atenciosos para com os especialistas da área. Quando o assunto é língua, porém, o espaço maior é invariavelmente ocupado por alguns oportunistas que, apoderando-se inteligentemente dessas "superstições, mitos e estereótipos", conseguem transformar esse folclore lingüístico em bens de consumo que lhes rendem muito lucro financeiro, além de fama e destaque na mídia. Basta comparar o espaço dedicado, no último número de VEJA, ao Prof. Luiz Antônio Marcuschi (reconhecido quase unanimemente hoje no Brasil como o nome mais importante da ciência lingüística entre nós) e aos atuais pregadores da tradição gramatical que infestam o quotidiano dos brasileiros com suas quinquilharias multimidiáticas sobre o que é "certo" e "errado" na língua. Seria espantoso ver uma matéria de VEJA em que aparecessem zoólogos falando mal da Biologia, ou engenheiros criticando a Física, ou cirurgiões maldizendo da Medicina. No entanto, ninguém se espanta (e muitos até aplaudem) quando o Sr. João Gabriel de Lima, fazendo eco aos detratores da Lingüística (como o Sr. Pasquale Cipro Neto), fala da existência de "certa corrente relativista" e escreve absurdos como "trata-se de um raciocínio torto, baseado num esquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que é popular - inclusive a ignorância, como se ela fosse atributo, e não problema, do 'povo'. O que esses acadêmicos preconizam é que os ignorantes continuem a sê-lo." Seria muito fácil retrucar que estamos aqui diante de um "direitismo de meia-pataca" que acredita na existência de uma "ignorância popular", mas, como cientista, prefiro recorrer a outro tipo de argumento, baseado na reflexão teórica serena e na experiência conjunta de muitas pessoas que há anos se dedicam ao estudo e ao ensino da língua portuguesa no Brasil.Segundo a reportagem, as críticas que o Sr. Pasquale Cipro Neto recebe dessa "corrente relativista" deixam-no "irritado". Ora, o que parece realmente irritar o Sr. Pasquale é o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes universidades do Brasil - centros de pesquisa lingüística, diga-se de passagem, reconhecidos internacionalmente como entre alguns dos melhores do mundo (Unicamp, USP, Unesp, UFRGS, UFPE entre outras). Muito pelo contrário, se o nome do Sr. Pasquale é mencionado nas nossas universidades, é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino (em vários de seus artigos em jornais e revistas ele já chamou os lingüistas de "idiotas", "ociosos", "defensores do vale-tudo" e "deslumbrados").

Se o Sr. Pasquale se irrita com os cientistas da linguagem, é porque sabe que não tem como responder às críticas que recebe por parte dos pesquisadores, dos teóricos e dos educadores empenhados num conhecimento maior e melhor da realidade lingüística do nosso país. Digo isso com base na experiência de já ter participado de três debates junto com o Sr. Pasquale e ter conhecido sua estratégia de nunca responder com argumentos consistentes às críticas a ele dirigidas, preferindo sempre retrucar com arrogância, prepotência, grosserias e ataques pessoais (chamando os lingüistas de "ortodoxos" - seja isso lá o que for - e de "bichos-grilos") ou fazendo-se de vítima de alguma perseguição (num desses encontros ele declarou sentir-se como um "boi de piranha"). A razão para essa falta de argumentos consistentes é muita simples: o Sr. Pasquale não tem formação científica para tratar dos assuntos de que trata. Suas opiniões se baseiam exclusivamente na arcaica doutrina gramatical normativo-prescritiva, cuja inconsistência teórica e cujos problemas epistemológicos graves vêm sendo demonstrados e criticados pela Lingüística moderna desde pelo menos o final do século XIX. As concepções do Sr. Pasquale de "certo" e de "errado" estão em franca oposição, não só com as teorias científicas mais atuais, mas até mesmo com a postura investigativa dos gramáticos profissionais de sólida formação filológica (coisa que ele definitivamente não é), para não mencionar as diretrizes pedagógicas das instâncias superiores da Educação nacional. O documento do Ministério da Educação chamado Parâmetros Curriculares Nacionais, por exemplo, é bem explícito em seu volume dedicado ao ensino da língua portuguesa: A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre 'o que se deve e o que não se deve falar e escrever', não se sustenta na análise empírica dos usos da língua.E este mesmo documento é enfático ao afirmar que:há muitos preconceitos decorrentes do valor social relativo que é atribuído aos diferentes modos de falar: é muito comum se considerarem as variedades lingüísticas de menor prestígio como inferiores ou erradas. O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola, como parte do objetivo educacional mais amplo de educação para o respeito à diferença. Para isso, e também para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma 'certa' de falar - a que se parece com a escrita - e o de que a escrita é o espelho da fala - e, sendo assim, seria preciso 'consertar' a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a forma de falar do aluno, tratando sua comunidade como se fosse formada por incapazes, denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico.É provável, no entanto, que o Sr. Pasquale Cipro Neto e o Sr. João Gabriel de Lima acreditem que os Parâmetros Curriculares Nacionais sejam obra de membros daquela "corrente relativista" que conseguiram se infiltrar no Ministério da Educação e se apoderar da redação do documento oficial. Vamos, então, deixar de lado as propostas oficiais de ensino e lançar um olhar sobre a própria prática normativo-prescritiva de pessoas como o Sr. Pasquale - assim ficará mais fácil descobrir por que ele não encontra argumentos para reagir às críticas bem-fundadas dos lingüistas e educadores sérios e por que só consegue fazer sucesso entre os leigos e os que se recusam (certamente por motivações ideológicas) a aceitar uma concepção de língua mais democrática. Consultando a gramática que Pasquale Cipro Neto assina em parceria com Ulisses Infante (Gramática da Língua Portuguesa, Editora Scipione, São Paulo, 1998), encontra-se, à p. 521-522, a seguinte explicação para o uso supostamente "correto" do verbo custar:Custar, no sentido de "ser custoso", "ser penoso", "ser difícil" tem como sujeito uma oração subordinada substantiva reduzida. Observe:Ainda me custa aceitar sua ausência.Custou-nos encontrar sua casa.Custou-lhe entender a regência do verbo custar.No Brasil, na linguagem cotidiana, são comuns construções como "Zico custou a chutar" ou "Custei para entender o problema" [...]Na língua culta, essas construções em que custar apresenta um sujeito indicativo de pessoa são rejeitadas. Em seu lugar, devem-se utilizar construções em que surja objeto indireto de pessoa: "Custou a Zico chutar" (= Custou-lhe chutar")Quero chamar a atenção, aqui, para a seguinte afirmação dos autores: "Na língua culta, essas construções [...] são rejeitadas". Aqui está um exemplo claro e nítido de uma concepção abstrata da língua, tratada como uma espécie de entidade viva, de sujeito animado, capaz de "rejeitar" alguma coisa. Ora, que língua culta é essa que supostamente rejeita essas construções? Será a língua dos nossos grandes escritores, que sempre serviu de material para o trabalho dos gramáticos normativistas? Fui investigar e descobri que não é, porque os exemplos de uso do verbo custar com sujeito são mais do que abundantes na nossa melhor literatura:(1) "Seixas custou a conter-se" (José de Alencar)(2) "... as moças custavam a se separar" (Clarice Lispector)(3) "Renato custou a acordar" (Carlos Drummond de Andrade)(4) "Felicidade, custas a vir e, quando vens, não te demoras" (Cecília Meireles)"Será que Alencar, Clarice Lispector, Drummond e Cecília Meireles não são bons exemplos de usuários da "língua culta"? Se não é na literatura, quem sabe, então, se recorrermos à imprensa contemporânea? Será que é lá que mora a famosa "língua culta" que rejeita essas construções? Ora, consultando o jornal onde o próprio Pasquale Cipro Neto escreve (Folha de S. Paulo) e onde presta serviços de "consultor de português" (seja isso lá o que for), encontramos:(6) Quem foi ao show de Maria Bethânia, anteontem à noite, depois de assistir o sóbrio concerto de João Gilberto, custou a crer que estivesse na mesma cidade (22/6/1998, p. 5-10).(7) O técnico colombiano, Hernán Darío Gómez, [...] custou a admitir a superioridade rival (16/6/1998, p. 4-14).(8) O nome Kubitschek era complicado de pronunciar, custou a ser assimilado pela fonética eleitoral (21/11/1997, p. 4-3).Se lembrarmos que José de Alencar morreu em 1877, fica muitíssimo claro que essa construção está viva e presente na nossa língua há muito mais de um século! Os autores da gramática estão proferindo uma inverdade ao dizer que essa construção é típica do "Brasil quotidiano". Os Srs. Pasquale e Ulisses, em vez de se curvar à realidade concreta dos fatos, tentam nos convencer de que a opção que eles preferem, só porque é a tradicional, é que deve ser considerada "a melhor". É uma atitude essencialmente dogmática, que se recusa a empreender a pesquisa empírica mínima necessária para afirmações sobre o que existe e o que não existe na língua. Além disso, essa atitude é ainda mais conservadora do que a posição assumida por gramáticos de gerações anteriores à deles, como Celso Pedro Luft e Domingos Paschoal Cegalla, que reconhecem a vitória da construção "eu custo a crer que"... Esse é apenas um pequeno exemplo de como é fácil, para um pesquisador munido de instrumental teórico consistente e de metodologia científica adequada, desautorizar uma a uma, e de modo convincente, as afirmações presentes no trabalho do Sr. Pasquale Cipro Neto e de outros atuais defensores da doutrina gramatical tradicional mais normativa e mais prescritiva possível. Por causa de tudo isso é que a estréia do Sr. Pasquale no programa Fantástico da Rede Globo representa, para a grande maioria dos cientistas da linguagem e dos educadores conscientes, mais um exemplo de como o nosso trabalho ainda está no começo, apesar de tudo o que já temos dito e feito. O quadro do Sr. Pasquale no Fantástico faz regredir em pelo menos 25 anos os grandes avanços já obtidos pela Lingüística na renovação do ensino de língua na escola brasileira. Não consigo, portanto, deixar de repetir o chavão: ele se encontra na contramão da História.Como já enfatizei acima, pessoas como o Sr. Pasquale só conseguem fazer sucesso entre os leigos, porque dizem exatamente o que as pessoas desejam ouvir: os mitos, as superstições e as crenças infundadas que, há mais de dois mil anos, guiam o senso-comum ocidental no que diz respeito à língua. Refiro-me ao senso-comum ocidental porque essa situação de embate entre uma ciência lingüística moderna e uma doutrina gramatical arcaica também se verifica em outros países - basta ler os livros Language Myths, publicado na Inglaterra sob organização de L. Bauer e P. Trudgill, e o Catalogue des idées reçues sur le langage, publicado na França por Marina Yaguello. É por isso que escrevi, acima, que nossa luta ainda está no começo. É uma pena que não possamos contar com a ajuda dos meios de comunicação para dissipar todos esses mitos e preconceitos, que impedem a formação, no Brasil em particular, de uma auto-estima lingüística, uma vez que tudo o que os brasileiros ouvem e lêem são os mesmos chavões, repetidos há séculos, de que "brasileiro não sabe português" e que a língua que falamos é "português estropiado". (O pesquisador canadense Christophe Hopper localizou lamúrias e queixas sobre a "ruína" e a "decadência" do francês em textos publicados em 1933, 1905, 1730 e 1689, o que prova a antiguidade desse discurso alarmista e preconceituoso sobre o fenômeno da mudança das línguas ao longo do tempo!)Outro fato lamentável, na reportagem de VEJA, é que seu autor não tenha prestado o grande favor à sociedade de identificar quem são os membros dessa "certa corrente relativista", para que todos, público leitor em geral e lingüistas profissionais em particular, pudéssemos nos precaver contra o suposto "raciocínio torto" de um "esquerdismo de meia-pataca" dos que acreditam que ensinar a norma-padrão não seria útil para as classes sociais desfavorecidas. Minha curiosidade ficou especialmente aguçada porque, como pesquisador dedicado há muitos anos ao estudo das relações entre língua, ensino de língua e fenômenos sociais, até hoje não encontrei uma única obra - assinada por lingüista de formação ou por educador profissional - que negasse a importância do ensino da norma-padrão na escola brasileira, que pregasse a idéia torpe de que não se deve ensinar as formas prestigiosas da língua, ou que "preconizam que os ignorantes continuem a sê-lo", para citar as palavras infelizes da reportagem de VEJA.Entre os membros da comunidade acadêmico-científica que não se intimidam diante da pressão esmagadora das "superstições, mitos e estereótipos" sobre a língua podemos citar a Profa. Magda Soares (reconhecida como uma das mais importantes educadoras brasileiras de todos os tempos) e o Prof. Sírio Possenti (que nunca teve papas na língua para denunciar e demolir cientificamente os absurdos proferidos por gente como Pasquale Cipro Neto). Ora, já em 1986, Magda Soares, em seu livro (um clássico da educação brasileira) Linguagem e Escola (Editora Ática), escrevia, sem hesitação (p. 78):Um ensino de língua materna comprometido com a luta contra as desigualdades sociais e econômicas reconhece, no quadro dessas relações entre a escola e a sociedade, o direito que têm as camadas populares de apropriar-se do dialeto de prestígio, e fixa-se como objetivo levar os alunos pertencentes a essas camadas a dominá-lo, não para que se adaptem às exigências de uma sociedade que divide e discrimina, mas para que adquiram um instrumento fundamental para a participação política e a luta contra as desigualdades sociais.Também em seu muito divulgado livro Por que (não) ensinar gramática na escola (Ed. Mercado de Letras, 1996), Sírio Possenti faz questão de enfatizar (p. 17-18):O PAPEL DA ESCOLA É ENSINAR LÍNGUA PADRÃO[...] adoto sem qualquer dúvida o princípio (quase evidente) de que o objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, talvez mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido. Qualquer outra hipótese é um equívoco político e ideológico. E eu mesmo, que não tenho hesitado em combater abertamente a manutenção das concepções arcaicas e preconceituosas de língua, escrevi em meu mais recente livro publicado (Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa, Parábola Editorial, 2001):[...] como responder a pergunta (invariavelmente presente na fala dos professores de língua): qual o objeto de ensino nas aulas de português? O que devemos ensinar a nossos alunos em sala de aula?Uma resposta concisa e rápida seria: devemos ensinar a norma-padrão. Já que só se pode ensinar algo que o aprendiz ainda não conhece, cabe à escola ensinar a norma-padrão, que não é língua materna de ninguém, que nem sequer é língua, nem dialeto, nem variedade, como enfatizei acima. Ensinar o padrão se justificaria pelo fato dele ter valores que não podem ser negados - em sua estreita associação com a escrita, ele é o repositório dos conhecimentos acumulados ao longo da história. Esses conhecimentos, assim armazenados, constituiriam a cultura mais valorizada e prestigiada, de que todos os falantes devem se apoderar para se integrar de pleno direito na produção/condução/transformação da sociedade de que fazem parte.Tenho, portanto, a consciência muito tranqüila (como decerto também a têm Magda Soares, Sírio Possenti e, de fato, a maioria dos lingüistas e educadores brasileiros comprometidos com a democratização de nossa sociedade) de não fazer parte daquela "corrente relativista" e de não poder ser acusado de ter um "raciocínio torto". Por isso, volto a lamentar que o Sr. João Gabriel de Lima não tenha dado nome aos bois, para que, juntos, pudéssemos combater esse suposto "esquerdismo de meia-pataca". Não nomear seus adversários no plano intelectual, no entanto, é prática corrente de pessoas como Pasquale Cipro Neto que, embora alegando referir-se a "alguns" lingüistas, nunca se dá ao trabalho de dizer quem são os "idiotas", "ociosos" e "deslumbrados" a que se refere.A grande diferença entre os lingüistas e educadores que defendem o ensino da norma-padrão e os apregoadores da doutrina gramatical arcaica está no fato de que já se sabe hoje em dia que, para aprender as formas mais padronizadas e prestigiosas da língua, não é necessário conhecer a nomenclatura gramatical tradicional, as definições tradicionais, nem praticar a velha e mecânica análise lexical e muito menos a torturante análise sintática. Em seu depoimento a VEJA, o Sr. Pasquale Cipro Neto lamenta que ninguém mais saiba diferenciar "sujeito" de "predicado", nem mesmo os professores. Ora, todo um longo trabalho de investigação teórica e de pesquisa em sala de aula - no Brasil e no resto do mundo -, trabalho que se faz há pelo menos trinta anos, já deixou muito claro que não é decorando as páginas da gramática normativa que uma pessoa será capaz de falar, ler e escrever adequadamente às diversas situações. O já citado M. Stubbs escrevia, em 1987, queMuita gente lamenta o fim do ensino da gramática formal (análise sintática e coisas assim), alegando que ele ajudava as crianças a escrever melhor, com mais precisão e assim por diante. [...] é duvidoso que aquele ensino jamais tenha ajudado muita gente a escrever melhor, e é nítido que ele afugentou um grande número de pessoas. A relação entre análise e compreensão, e entre compreensão consciente e produção de linguagem efetiva, é difícil de demonstrar.E o pedagogo canadense Gilles Gagné, em 1983, já dizia:"O uso da língua procede da intenção para a convenção", conclui McShane (1981), ao passo que a escola procede infelizmente ao contrário, isto é, das convenções lingüísticas para as intenções de comunicação; intenções, além disso, quase sempre artificiais e impostas ou sugeridas pelo mestre.E aquele que é considerado hoje, inclusive internacionalmente, como o nome mais importante da pesquisa científica sobre o português brasileiro contemporâneo - o Prof. Ataliba T. de Castilho, da USP, atual presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina e coordenador do grande Projeto da Gramática do Português Falado (projeto apresentado de maneira distorcida e preconceituosa no número 1710 de VEJA) - escreve com toda clareza em seu livro A língua falada e o ensino de português (Ed. Contexto, 1998, p. 21-22):[...] os recortes lingüísticos devem ilustrar as variedades sócio-culturais da Língua Portuguesa, sem discriminações contra a fala vernácula do aluno, isto é, de sua fala familiar. A escola é o primeiro contato do cidadão com o Estado, e seria bom que ela não se assemelhasse a um "bicho estranho", a um lugar onde se cuida de coisas fora da realidade cotidiana. Com o tempo o aluno entenderá que para cada situação se requer uma variedade lingüística, e será assim iniciado no padrão culto, caso já não o tenha trazido de casa. Desse modo, prossegue o autor (p. 23),a gramática deixará de ser vista pelos alunos como a disciplina do certo e do errado, reassumindo sua verdadeira dimensão, que é a de esquadrinhar através dos materiais lingüísticos o funcionamento da mente humana. Afinal, o que aconteceu, ao longo dos séculos, segundo Castilho, foi quea gramática, que não era uma disciplina autônoma, assumiu na escola uma vida própria, desgarrada de suas origens, e concentrada apenas na sentença, na palavra e no som, obscurecendo-se sua argumentação e empobrecendo-se seu alcance. Se existe, porém, uma grande resistência contra o redimensionamento do lugar do ensino da gramática na escola é porque todos sabemos que, ao longo do tempo, o conhecimento mecânico da doutrina gramatical se transformou num instrumento de discriminação e de exclusão social. "Saber português", na verdade, sempre significou "saber gramática", isto é, ser capaz de identificar - por meio de uma terminologia falha e incoerente - o "sujeito" e o "predicado" de uma frase, pouco importando o que essa frase queria dizer, os efeitos de sentido que podia provocar etc. Transformada num saber esotérico, reservado a uns poucos "iluminados", a "gramática" passou a ser reverenciada como algo misterioso e inacessível - daí surgiu a necessidade de "mestres" e "guias", capazes de levar o "ignorante" a atravessar o abismo que separa os que sabem dos que não sabem português...Em conclusão, Sr. Editor, gostaria de lhe pedir que, uma vez que tão amplo espaço foi concedido aos defensores da idéia medieval de que "os brasileiros não sabem falar bem", caberia agora a VEJA conceder igual espaço aos verdadeiros especialistas, às pessoas que dedicam toda sua energia, toda sua inteligência, toda sua vida, enfim, ao estudo dos fenômenos da linguagem humana e à proposição de novos métodos de ensino, capazes de dar voz aos que, por força de tantas estruturas sociais injustas, sempre foram mantidos no silêncio. Talvez assim VEJA possa se livrar do risco de ser acusada de promover "distorções deliberadas dos fatos lingüísticos e pedagógicos".Atenciosamente,MARCOS BAGNODoutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São PauloMestre em Lingüística pela Universidade Federal de PernambucoEscritor com mais de 20 livros publicadosTradutor profissional de inglês, francês, espanhol e italianoMembro da Associação Brasileira de LingüísticaAutor das seguintes obras sobre língua e educação, amplamente adotadas nas universidades brasileiras:· A Língua de Eulália. Novela sociolingüística - Ed. Contexto, 1997 (em 10a edição, mais de 50.000 exemplares vendidos)· Pesquisa na escola: o que é, como se faz - Ed. Loyola, 1998 (em 8ª edição, mais de 30.000 exemplares vendidos)· Preconceito lingüístico: o que é, como se faz - Ed. Loyola, 1999 (em 10a edição, mais de 50.000 exemplares vendidos)· Dramática da Língua Portuguesa: tradição gramatical, mídia & exclusão social - Ed. Loyola, 2000· Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa - Parábola Editorial, 2001 (1a edição esgotada em menos de dois meses)· Norma lingüística (seleção e tradução de textos de autores estrangeiros sobre a questão da norma)" - Ed. Loyola, 2001MARCOS BAGNO


O problema do ensino da língua materna reside no sistema: escola- professor-aluno e gramática.

Houve evolução ao tratamento da Língua pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, mas será que isso se dá de fato nas escolas? O professor parece perdido em tanta confusão. O que ensinar? Ensino Gramática Tradicional mesmo? Mas ela é toda contraditória! Parece que estou falando grego para os alunos! O que se diz num livro não se diz em outro! Parece que os professores de português não se entendem! Eu sei mesmo ensinar isso? Nem eu entendo às vezes, quanto mais o aluno!



Aflições.


Por enquanto, ficaremos por aqui. Essas são as primeiras impressões.


Hugo Magalhães.